sábado, 25 de fevereiro de 2012

Cartas inacabadas...

Palavras perdidas, pedaços de mim deixados por aí,
Em folhas e cadernos sérios, despedaçadas...

Palavras órfãs por falta de coragem ou inspiração, tentativas de reencontros, tolhidas pelo medo, palavras que morriam no peito, em angustia, mesmo antes de nascerem em papel.

Palavras de euforia incontida ou desespero de saudade,
Sorrisos que disfarçavam insegurança, palavras pela metade...

Palavras tolhidas, mutiladas, seguradas na ponta da língua e da alma,
Algumas, umas tantas, fugindo pelas pontas dos dedos e depois cortadas - palavras e dedos...

Pedaços (in)acabados de mim.

Descabidas no papel...

Incompletas.


.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Outra história de sonhos...

Ele tinha vários filhos e filhas, onze se não me engano. E eu, espectador esquecido e desatento, acompanhava, de longe, sua história. O abandono de seu pai o marcara muito, a vida toda, fizera se assim, homem duro e cheio de arrependimentos, nunca a resolver-se com seus filhos, mas determinado no trabalho, nas coisas para as quais "devia" se dedicar.

Era bem sucedido, usava terno, camisa clara e calça social, mas aos 40 seus cabelos já eram todos grisalhos, e estava sendo afetado por uma curiosa doença...

Começara a se esquecer de tudo. Dos referênciais, das pessoas, de tudo, das poucas coisas que lembrava, não raro lhes dava outro sentido. Sua doença agravou sua revolta contra seu pai, contra sua vida, agravou o distanciamento de seus onze filhos e de quem quer mais o acompanhasse.

Já mais fraco e mais velho, numa amargura muito grande... Num louco impeto... Invadiu o cemitério onde seu pai havia sido enterrado. Chovia bastante, nosso "héroi" cavava furiosamente o tumulo de seu pai, com o intuito de sabe-se lá o que, sua revolta contra seu progenitor e contra "Deus" jorravam de suas palavras furiosas a cada pazada, até que, por fim, não havia mais o que cavar e não encontrara nada...

E de subito se esqueceu... Porque viera, e que tivera um pai, e sua revolta contra "Deus".
Então achou que a cova era sua. Deitou-se confortávelmente em seu tumulo e fitou o céu...

"Não tenho arrependimentos, só espero que na proxima a playlist seja mais longa"

Morreu sorrindo, de olhos fechados, a cabeça pendendo para trás, babando, a pá ainda em suas mãos.


.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Fatos Criados...

Temores encarnados, insuportáveis.

Que nos recusamos a viver, que não conseguimos aceitar.

Abismos do mundo que não mais são que abismos de nós.
Existem porque deles nos defendemos.

Por acreditarmos,

Os criamos.


"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." F. Nietzsche



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Desapaixonar-se...

Hoje queria me desapaixonar, de todas as garotas-mulheres que já mexeram comigo... Me encantar apenas pelo vento, pelas flores no caminho... O nascer ou o por do Sol - e a Chuva, o arco-íris que eventualmente aparece no céu. Me assustar com o som dos raios cortando o seu e a beleza de seu brilho, os desenhos que formam nos dias e noites de chuva intensa. Mas definitivamente queria me des-pensar em relacionamentos, queria esquecer-me e esquecer de todas elas, de todos esses encontrares e por um único instante - respirar.

Eu, apaixonado incorrigível, peço tempo. É que tenho apreciado bem esse tempo de mim mesmo, embora meu coração inquieto não deixe de se encantar. Mas queria me poupar por um tempo, e me esqueço, me dedico, à minha casa, ao Kung Fu, à companhia de meus amigos e irmãos.

As mensagens no celular, os escritos para pessoas, meus escritos próprios, vão devagar, preguiçosamente feitos, como alguém que lê um livro bem devagar, porque gosta do desenrolar da história, mas se incomoda com a ideia de que aquilo levará a um final, uma definição, um desenrolar-se.

É isso... Eu sou um enrolado. Não menos sincero, muito menos, menos apaixonado. Talvez até mais, e tanto, que já não sei mais... e nem quero saber... estou apenas cansado...

Com uma má sorte danada para histórias leves, para amores simples...

E para fugir de alguns Amares, difíceis de lidar, me escondo em outros...
Ou os escondo de mim... Mas nunca me escapo...
Mas me furto ainda mais de ser coerente...

Amo, muito e tanto...

Me perco... é que não faço questão do destino, gosto da companhia.

"Se não pode simplificar, complique".

"Eu amo você."

E assim, num desabafo pra esquecer, eu termino...

Lembrando.

.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Sobre mídia e náuseas.

Meus pais assistem tevê, o programa, não sei qual o nome, de uma das grandes emissoras de nosso país, está a testar o "cidadão comum brasileiro".
A "brincadeira", "teste", "pesquisa" começa com uma grande introdução sobre a tolerância dos "brasileiros" à desonestidades como alterar taxímetros, ficar com troco a mais ou dar troco a menos. E o programa se propõe a testar a "honestidade" desse tal "cidadão comum brasileiro".
A câmera escondida testa a honestidade dos cidadãos desavisados que estão ali a fazer suas compras... Uns não percebem e saem, outros voltam e usam o dinheiro, ou aparentemente percebem mas não dizem nada. Outros percebem na hora e devolvem. Uns quando abordados pelo repórter voltam e devolvem, outros não, desconversam e saem.

O juízo moral se expressa em cada centimetro do programa, e meus pais e irmãos dão risadas dos desonestos que alegam não ter percebido, ou ficam desconcertados com a abordagem do reporter. O programa e a minha família da vivas aos que devolvem, oh, os poucos honestos de nosso decadente país! Que tristeza...
E num único close da vida daquelas pessoas descobrimos magicamente através da telinha da televisão a desonestidade que se encrua por debaixo de suas unhas sujas desse tal cidadão de bem...
Espectadores e repórteres transformados em juízes da honestidade alheia. Sempre atemos a criticar e a criar frases de efeito como "distração ou má fé°".
Cidadãos recortados em um pequeno momento de suas vidas, independentemente de seus trajetos históricos, de sua formação, ou do seu humor naquele dia infeliz, são expostos à publico. Uns louvados pelo seu gesto honesto, outros condenados. Diante de si, diante dos espectadores.
E câmeras escondidas, muitas câmeras escondidas...

Engraçado é pensar, que todos esses espectadores e ditos reporteres, são tão mortais e sujeitos à situações tão prosaicas quanto aos que expõem... Cultua-se uma moralidade ideal, o tipo de brasileiro cidadão de bem que faria esse pais ir para frente...

Mas a moralidade da mídia... é coisa de televisão.

A vigilância se tornou o hobby do século XXI e o medo, sua nova religião.

E nossas vozes ficam engasgadas em palavras como "segurança" e "combater a corrupção, o crime, o trafico, a vadiagem, etc...".
Julgamos convenientemente das nossas poltronas todos os "vis criminosos" que aparecem nas telinhas da TV, todas as vidas alheias as nossas, que na maioria das vezes que olhamos pra telinha, não tem nada a ver com a nossa.

Uma mídia para classe média. Para uma cultura que aprende a cada dia a santificar a classe média, porque afinal de contas "classemediasofre" dizem por aí. Propagandas de shoppings, carros, livros, empréstimos maravilhosos, bancos ,seguros... Perfumes, camisas, sapatos... E um jornalismo fundado no medo... taxas de criminalidade, testes de honestidade, cameras escondidas, programas policiais, reportagens sobre psicopatas e mapas de zonas de perigo. Tragédias familiares - geralmente da classe média - tragédias sociais - dificilmente da classe média. Um pseudo-formalismo, uma educação, tudo muito limpinho muito certinho - um modo de vida muito branco, muito claro - de dar náuseas!

Sem sal porque faz mal pro coração e sem açúcar porque engorda.
Uma cultura de tédio e analgesia. Que faz da extensão da vida um valor por si próprio...
Que não se experimenta, que não se pode ser por si só...

Que propõe um modo de vida correto da qual a maior parte do país não pode compartilhar...
Mas vive sobre o terrível julgamento do padrão social. Não só dos programas babacas de televisão, mas como incorporamos essa cultura de vigilância às nossas vidas...

Como nos pensamos e nos sentimos a partir desses modelos em que somos educados,
nossas opressões introjetadas... Que tentam nos dizer como é ser correto no mundo.

E não meus caros, felizmente, Nunca encaixaremos! Seremos sempre os tortos, os errados na vida, sujos, feios e suados. Distantes demais dessa amenidade, levados pelos fluxos de nossas conturbadas vidas, apenas somos. Humanos! Contraditórios, incoerentes, inapreensíveis pela razão... Maus alunos.

Mas a zelosa mestra TV está ali sempre, para nos ensinar, o membro mais sagaz da família. Sentados no nosso devido lugar. Espectadores, espectando. Ouvindo o que deve ser ouvido, vendo o que deve ser visto...

Assim eu brindo... à desorganização, e à desobediência. Que o autoritarismo nas nossas vidas, já começa na frente da telinha, ainda mamando no peito.

Com nossos pais se pensando enquanto protagonistas de novela...


"A televisão /2
A televisão mostra o que acontece?

Em nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar.

A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Por que a vida é um espetáculo: para os que se comportam bem,
o sistema promete uma boa poltrona."

Eduardo Galeano




.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pra caminhar...

Sofrer pelo sofrimento, aumenta o sofrimento.
Achar ser fraco por estar fraco, fortalece a fraqueza.
Ter medo do medo, dilata o medo.
Ficar ansioso com a ansiedade, intensifica o desespero.


Por que não permitir que as coisas simplesmente sejam?
Deixar que façam parte, não deixa que se potencializem essas angustias.
Elas podem ser o que são, sem serem aumentadas pela nossa dificuldade em lidar com a nossa "perda do paraíso".


.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Meu ar é saudade...

"Na memória, sublimada das mais diferentes formas, existe algo que se parece à esperança."

"É existe, sempre existe.
Não há em mim Amar que não esperance.
Nem esperança que não esteja encantada por Amares...
Não há esperança que não deixe a porta aberta...
E não anseie por retorno.
Nesses meus Amares que presentificam ausências,

Não há ausência que não seja presente num suspiro de Saudade...

Não há nada que não seja uma forma disfarçada de suspiro.”


.