quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ventos de outono...

Ventos de outono chegam suaves, como suspiros de saudade.
O  frio ocupa todos os lugares que ela deixou.

O Sol falseia um calor que não nos alcança,
e eu deitado, observo o retorno dos ventos,
que não vem com o retorno de alguns cheiros.

o céu é mais estrelado no Outono, mas é mais estrelado na minha cidade,
na minha raiz mais forte. E a Lua brilha mais e maior.

Um jardim de cinza e verde nas montanhas,
coroada pelas torres das igrejas
que aparecem por cima de seu manto de neblina.

Díficil é manter as mãos e pés quentes, e os corações.
E sair da toca. E tocar. Ser tocado.
Sou um urso que adiantou o inverno para hibernar mais tempo.

O Outono é
todas saudades,
sussurradas ao pé do ouvido...



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domingo, 22 de abril de 2012

E de repente...

Já não era a mesma coisa.
O que é que tinha mudado? Os traços do rosto?
Seria o cabelo longo, escuro e ondulado?

Algo mudou, não sei em quem.

Sei que ganhei um sorriso novo.

No peito.


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segunda-feira, 9 de abril de 2012

O que eu amo no mundo...

A forma como somos capazes de nos entregar...
Me perco e me apaixono, pelos amares das pessoas.
Pelos encantos que encantam e pelos encantados.
Amo os apaixonados, e suas paixões...
Não há gosto melhor, nem cheiro mais gostoso que o da entrega das pessoas,
aquele cheiro de tempo, de tempos, de expressão e vida.

Tempo esse que tem mais a ver com borboletas  e se jogar e abismos,
do que com o girar repetitivo do eterno ciclo do relógio,
que pode ter a duração de um beijo ou nos acompanhar vida a fora.

É o milagre do mundo, que nos faz ver as pessoas com quem esbarramos de uma forma nítida,
naquele pequeno fragmento de expressão...

Que se traduz em vida.



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sexta-feira, 6 de abril de 2012

ultimo suspiro de uma suposta sanidade...

escrita. perdição de si,
de mim.
reencontro,
me perco.
louco duas vezes ao avesso.
os diálogos rompidos, internalizados, um banquete dos meus, comigo mesmo. De mim mesmo.
O Festim das Minhas incorrespondências...

Peço, caso essa loucura um dia me tome,
(e dizer já não adiante mais nada)...
Peço, não me trancafiem...

me deem papel e caneta!


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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Dizeres...

(Ou A Celebração da Sinestesia)


"Coração do Outro é terra de ninguem"

Palavras ditas produzem,
os mundos sobre os quais dizemos...

Dizem mais respeito a nós - dizentes,
do que àqueles sobre quem falamos...
Ouvimos pouco... Cheiramos menos ainda,
Ainda nos tocamos... eu acho...

Saber ver é ouvir
e escutar com os olhos.
Não deixar a boca surda, solta.
Gritar bem alto com os ouvidos,
Cheirar com todas as peles,
Esbarrar, e nem saber bem onde, ou quando...


Sentir e só...
                                 [Com o corpo inteiro]


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quinta-feira, 22 de março de 2012

A Garota que esperou...

(Para Joana Fraga/Satine Black)

Poderia olhar para esse céu e me encantar por hoje e a cada hoje. E morreria a contempla-lo, e assim, o continuaria contemplando...
Pois que a morte nem me passaria pela pele, nem me lembraria do que fui, nada superaria a beleza da profundidade azul e do brilho de todo infinito diante mim...
Nele, eu me perderia, para ja-mais ser denovo...
Para a noite-ser...
Por dentro.

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sábado, 17 de março de 2012

Para jantar com os monstros...

Selo uma carta para cada um deles, um convite formal, enviado para os quatro cantos.
O jantar seria dado em minha casa, com toda pompa que poderia reservar a estes ilustres convidados. Serviria a eles muito bem passados , ou mal passados, a depender do gosto de cada um.
O primeiro a chegar, seria uma criança de oito anos, cabelo cortado em cuia, chorosa, com olhos muito avermelhados, estaria usando uma camisa um pouco curta, para dentro de uma bermuda também não muito grande, deixando exposta as varias feridas na perna, feridas que eventualmente ele insistiria em coçar, em comer seus pedaços e beber de seu sangue, apesar de todas as iguarias à mesa, eu tremeria diante de sua presença.
Os segundos a chegar seriam meu pai e minha mãe, feridos, andariam mancos pela casa, observando e criticando cada móvel, lançando olhares para mim, brigariam antes da janta começar, apesar dos lugares separados que eu havia deixado para eles na mesa.
Os terceiros também viram juntos, meus irmãos, de mãos dadas, ririam para mim, com suas roupas manchadas com respingos de sangue, incautamente causados quando deixarei um pouco dos mal passados cairem no prato, apesar de todo cuidado e alegria de servi-los. Eles ririam do sangue, sentariam entre meu pai e minha mãe, seus olhos, seriam os meus olhos.
E em meio ao jantar, eu iniciaria um longo discurso, sobre o motivo pelo qual os havia reunido ali, jantaríamos todos os pedaços de nossos passados, pedaços de mim passados. E nunca havia me passado pela cabeça o quanto seria um jantar antropofágico.
Minha barba estaria toda vermelha, meu rosto lambuzado, minhas vestes sujas. Eu desabaria - desabo - a chorar diante deles, dos convidados, que se transformavam em cada pessoa que eu conheço, que se transformariam inclusive nas pessoas que ainda não conheci. E eu me levantaria assustado, em outra crise de ansiedade, vomitaria-me diante deles, maus pedaços de mim, e os olharia com olhos de culpa, meus dentes seriam serrilhados, minhas unhas longas demais. Todos eles se deformariam diante de minhas deformidades, se formariam.
De frente para mim mesmo...
Jantava a frente de um espelho, o prato, estava vazio, a muito , passado.
E meu convidado, ali refletido, me olharia com espanto, assim como eu...



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