Com o tempo, as coisas que cultivamos,
passam também a nos cultivar.
Se tornam parte de nós e nós, delas.
Passamos assim, a viver dessa simbiose,
daí o sentido do verbo Apropriar-se...
É a arte da simbiose com a Vida, que torna tudo o que não é igual, inédito.
Que transforma a nossa forma,
E forma.
E Cria...
A nós mesmos.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
começo...
As mãos escondem olhos que observam, escondem sorrisos e choro.
E o coração apertado no peito, apertado de não aguentar mais - conflito e confusão.
No final, não parecem todas as exigências tão mesquinhas?
Nossas pequenas disputas cotidianas, nosso culto ao nosso "eu", à imagem que criamos de nós?
Não é estilhaçada de época em época essa vidraça, com o vento do tempo, carregado de suas intempéries?
E com que fim? Se apenas o fim é o destino?
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E o coração apertado no peito, apertado de não aguentar mais - conflito e confusão.
No final, não parecem todas as exigências tão mesquinhas?
Nossas pequenas disputas cotidianas, nosso culto ao nosso "eu", à imagem que criamos de nós?
Não é estilhaçada de época em época essa vidraça, com o vento do tempo, carregado de suas intempéries?
E com que fim? Se apenas o fim é o destino?
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sábado, 7 de dezembro de 2013
A Desconfiança é um sentimento solitário...
Não desconfiamos de quem não faz diferença, de pessoas cotidianas cujos vínculos que formamos não extrapolam sua formalidade diária. Podemos até assumir para nós mesmos comportamentos desconfiados em relação ao mundo, crendo não valer à pena dar chance a ninguém, uma vez que toda e qualquer pessoa está sujeita a nos decepcionar.
Mas não raro isso é uma extensão, da desconfiança que nos importa, a desconfiança causa dessa desconfiança do mundo - e sobretudo a que mais nos fere - é aquela que nutrimos sobre quem amamos. E nem é necessário que tenham nos enganado, as vezes apenas a frustração com algumas poucas pessoas amadas, frustrações que fazem parte da existência de qualquer um de nós, nos machuca profundamente, nos enche de dúvida.
E nesse lugar em nós das pessoas que importam, das pessoas que extrapolam a monotonia do convencional, aqui, a desconfiança é uma faca muito afiada.
Especialmente afiada, porque o engano não é antagônica ao amor, mas muitas vezes nele justificada.
Daí sua angustia mais profunda: Justamente por sermos amados, fomos "enganados".
Essa vinculação sinistra entre Amor e Engano, nos leva facilmente a associar que todo amor pode estar maculado por essa terrível sombra do "engano justificado"... Esse medo tende a se estender e permear cada novo vinculo que criamos.
Talvez daí venha boa parte dessa desconfiança geral em relação ao mundo, afinal, uma vez que, se aqueles que mais amamos e desprendemos de nós para estar por perto, não conseguimos (ou não podemos) confiar, em quem mais poderíamos?
Os sacerdotes modernos do Desapego saúdam três, quatro, cinco vezes, a desconfiança em relação ao mundo, esse culto ao afastamento, ao "Estado Mínimo" de vínculos e pessoas à nossa volta. E boa parte de nós acredita ser profundamente sábia e racional tal atitude em relação à nós mesmos, em relação às pessoas que encontramos e que aos poucos tornamos "inextrapoláveis"...
Absolutamente presas ao cotidiano nas quais às congelamos, de nada permitimos que faça que possa nos alcançar, nos tocar, nos desequilibrar. Mais do que a elas, não nos permitimos extrapolar, arriscar não mantê-las no convencional - nos congelamos.
Esse sentimento que parece liberdade, é uma solitária. É um bloco de gelo ao qual nos encerramos na expectativa de nos "imunizar" ou repelir a dor, evitar sofrer, que acaba se tornando "evitar viver".
Essa desconfiança surgida primeiro em relação a quem amamos. Nos toma e nos devasta por dentro. Nunca estando aqui em questão, se os outros são confiáveis ou não. A partir dessa experiência frustrante, criamos fórmulas, teorias e máximas para definir a humanidade segundo as nossas aflições e passamos a suspeitar de todos, nos fechamos à possibilidade de entrega, à possibilidade do dizer francamente e do acreditar no que ouvimos e, em algum tempo, no que nós mesmos dizemos..
A Desconfiança é, deveras, um sentimento terrivelmente solitário.
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Mas não raro isso é uma extensão, da desconfiança que nos importa, a desconfiança causa dessa desconfiança do mundo - e sobretudo a que mais nos fere - é aquela que nutrimos sobre quem amamos. E nem é necessário que tenham nos enganado, as vezes apenas a frustração com algumas poucas pessoas amadas, frustrações que fazem parte da existência de qualquer um de nós, nos machuca profundamente, nos enche de dúvida.
E nesse lugar em nós das pessoas que importam, das pessoas que extrapolam a monotonia do convencional, aqui, a desconfiança é uma faca muito afiada.
Especialmente afiada, porque o engano não é antagônica ao amor, mas muitas vezes nele justificada.
Daí sua angustia mais profunda: Justamente por sermos amados, fomos "enganados".
Essa vinculação sinistra entre Amor e Engano, nos leva facilmente a associar que todo amor pode estar maculado por essa terrível sombra do "engano justificado"... Esse medo tende a se estender e permear cada novo vinculo que criamos.
Talvez daí venha boa parte dessa desconfiança geral em relação ao mundo, afinal, uma vez que, se aqueles que mais amamos e desprendemos de nós para estar por perto, não conseguimos (ou não podemos) confiar, em quem mais poderíamos?
Os sacerdotes modernos do Desapego saúdam três, quatro, cinco vezes, a desconfiança em relação ao mundo, esse culto ao afastamento, ao "Estado Mínimo" de vínculos e pessoas à nossa volta. E boa parte de nós acredita ser profundamente sábia e racional tal atitude em relação à nós mesmos, em relação às pessoas que encontramos e que aos poucos tornamos "inextrapoláveis"...
Absolutamente presas ao cotidiano nas quais às congelamos, de nada permitimos que faça que possa nos alcançar, nos tocar, nos desequilibrar. Mais do que a elas, não nos permitimos extrapolar, arriscar não mantê-las no convencional - nos congelamos.
Esse sentimento que parece liberdade, é uma solitária. É um bloco de gelo ao qual nos encerramos na expectativa de nos "imunizar" ou repelir a dor, evitar sofrer, que acaba se tornando "evitar viver".
Essa desconfiança surgida primeiro em relação a quem amamos. Nos toma e nos devasta por dentro. Nunca estando aqui em questão, se os outros são confiáveis ou não. A partir dessa experiência frustrante, criamos fórmulas, teorias e máximas para definir a humanidade segundo as nossas aflições e passamos a suspeitar de todos, nos fechamos à possibilidade de entrega, à possibilidade do dizer francamente e do acreditar no que ouvimos e, em algum tempo, no que nós mesmos dizemos..
A Desconfiança é, deveras, um sentimento terrivelmente solitário.
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quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Sobre caminhos...
Onde está o caminho? Como sabemos se estamos no caminho ou não?
Quando a dúvida nos toma, como manter a confiança de que continuamos no caminho?
Definitivamente, enquanto estamos, estaremos em movimento. Caminhamos, mesmo que sem caminho, mesmo que não-conscientes... Ou a fazer tal caminho a partir do próprio caminhar... como uma estrada que se forma a partir das pegadas que deixamos, ela existe por onde a gente passou, e passa... mas não tem uma rota, trajetória definida... o futuro.
Talvez...
As perguntas do começo acabam, geralmente, se voltando para um anseio de avaliar as coisas, os caminhos e as escolhas e medir. Buscar por resultados, como se procuram por marcos e referências para se fazer um mapa... "um mapa do tesouro" muitas vezes. Uma expectativa de que no final daquela estrada encontraremos uma pá e um "X" no chão e um belo tesouro de pirata para desenterrarmos.
Avaliamos pelo resultado, os "frutos no caminho", as referencias encontradas, que reforça nossa convicção que estamos "no caminho certo" e encontraremos um belo tesouro ao final.
Eventualmente, se não enxergamos, porque há poeira em nossos olhos, porque estamos cansados, ou está escuro, nossa convicção é posta a prova, pela falta de méritos, pela seca de resultados... nosso caminho é questionado, o que fazemos, deixamos de fazer... como fazemos...
Mas qualquer um está em movimento, porque só por estar, já não é mais aquilo que foi, é um sempre "sendo". E mesmo que trace seu destino e tente determinar sua reta, seu caminho, as vias pelas quais percorrerá sempre serão diferentes daquilo que tinha em sua imaginação. Essa é uma das coisas mais encantadoras e duras de se perceber no mundo: A diversidade do mundo, daquilo que encontramos no não-esperado, na surpresa, a nos tirar de nossos lugares comuns...
E como nossos caminhos se alteram, as vezes sem quase nos darmos conta de que a pouco defendiamos com convicção que "isso nunca vai mudar"... mesmo quando os planejamos com todo cuidado e zelo, somos pegos de surpresa, pela nossa própria experiência no mundo. E por mais estabanada, dura, ou engraçada, essas experiências nos transformam... Ou "nelas, nos transformamos..."
A nenhuma cidade que fui (planejando ou não), as ruas eram iguais as que eu tinha imaginado antes de chegar. Nem iguais eram os momentos e as situações. E é difícil para mim julgar e estabelecer, quais foram os frutos colhidos, os méritos coletados, durante a trajetória (até por ter uma aversão a essas coleções);
"Valeu a pena?" "O que você conquistou/ganhou/evoluiu/etc... com isso?"
A importância está para quem pergunta em diferente lugar para quem a pergunta é feita.
Não sei medir a importância das pegadas deixadas na areia, muitas delas o vento já apagou,
nem consigo ver mais donde é saí. E não sei se tenho pretensão de chegar, porque também não sei pra onde vou.
É necessário pautar, nossas escolhas e caminhos, a partir de um julgamento sobre os méritos, sobre o valor de por onde passamos? Quantas medalhinhas conquistamos no caminho?
E se eu preferir olhar pro vento?
O impulso do mérito, conquistador, é como arrancar as asas de borboletas que encontrei pelo caminho, só para provar que as vi...
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Quando a dúvida nos toma, como manter a confiança de que continuamos no caminho?
Definitivamente, enquanto estamos, estaremos em movimento. Caminhamos, mesmo que sem caminho, mesmo que não-conscientes... Ou a fazer tal caminho a partir do próprio caminhar... como uma estrada que se forma a partir das pegadas que deixamos, ela existe por onde a gente passou, e passa... mas não tem uma rota, trajetória definida... o futuro.
Talvez...
As perguntas do começo acabam, geralmente, se voltando para um anseio de avaliar as coisas, os caminhos e as escolhas e medir. Buscar por resultados, como se procuram por marcos e referências para se fazer um mapa... "um mapa do tesouro" muitas vezes. Uma expectativa de que no final daquela estrada encontraremos uma pá e um "X" no chão e um belo tesouro de pirata para desenterrarmos.
Avaliamos pelo resultado, os "frutos no caminho", as referencias encontradas, que reforça nossa convicção que estamos "no caminho certo" e encontraremos um belo tesouro ao final.
Eventualmente, se não enxergamos, porque há poeira em nossos olhos, porque estamos cansados, ou está escuro, nossa convicção é posta a prova, pela falta de méritos, pela seca de resultados... nosso caminho é questionado, o que fazemos, deixamos de fazer... como fazemos...
Mas qualquer um está em movimento, porque só por estar, já não é mais aquilo que foi, é um sempre "sendo". E mesmo que trace seu destino e tente determinar sua reta, seu caminho, as vias pelas quais percorrerá sempre serão diferentes daquilo que tinha em sua imaginação. Essa é uma das coisas mais encantadoras e duras de se perceber no mundo: A diversidade do mundo, daquilo que encontramos no não-esperado, na surpresa, a nos tirar de nossos lugares comuns...
E como nossos caminhos se alteram, as vezes sem quase nos darmos conta de que a pouco defendiamos com convicção que "isso nunca vai mudar"... mesmo quando os planejamos com todo cuidado e zelo, somos pegos de surpresa, pela nossa própria experiência no mundo. E por mais estabanada, dura, ou engraçada, essas experiências nos transformam... Ou "nelas, nos transformamos..."
A nenhuma cidade que fui (planejando ou não), as ruas eram iguais as que eu tinha imaginado antes de chegar. Nem iguais eram os momentos e as situações. E é difícil para mim julgar e estabelecer, quais foram os frutos colhidos, os méritos coletados, durante a trajetória (até por ter uma aversão a essas coleções);
"Valeu a pena?" "O que você conquistou/ganhou/evoluiu/etc... com isso?"
A importância está para quem pergunta em diferente lugar para quem a pergunta é feita.
Não sei medir a importância das pegadas deixadas na areia, muitas delas o vento já apagou,
nem consigo ver mais donde é saí. E não sei se tenho pretensão de chegar, porque também não sei pra onde vou.
É necessário pautar, nossas escolhas e caminhos, a partir de um julgamento sobre os méritos, sobre o valor de por onde passamos? Quantas medalhinhas conquistamos no caminho?
E se eu preferir olhar pro vento?
O impulso do mérito, conquistador, é como arrancar as asas de borboletas que encontrei pelo caminho, só para provar que as vi...
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sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Causa mortis...
Causa mortis é a expressão que se usa para dizer do principal fator que causou a morte de alguém. Diversas são as causas da morte de uma pessoa que aparecem nesses atestados, falência múltipla dos órgãos que pode decorrer de um câncer ou de envenenamento do sangue, de uma infecção generalizada. Pode ser esmagamento da caixa toráxica ou do crânio; Parada cardíaca, morte encefálica...
Não sei como se referem aos suicídios por ingestão de medicamentos, ou quando alguem se corta, se enforca, ou se joga de algum lugar. Também não diferenciam nos acidentes de carro, a causa mortis de quem estava tonto no volante e quem não...
A morte é por "parada cardíaca" e não de "tristeza" ou de "falta de sentido no mundo". Bom, raramente também reportamos nosso desgosto, ao ponto de deixarmos claro os motivos que tem nos matado, no atestado, a falência multipla dos orgãos, o infarto fulminante, não vão dizer do desgosto e da dor, não vão dizer da angustia.
Não se trata de querer que conste tais coisas no atestado de obito de alguém. Até mesmo porque não sabemos quando morrermos "de fato", mas morremos, um pouco, todo dia... Todo mundo morre, várias vezes na vida, antes de morrer "da vida".
Todos os dias quando volto pra casa, eu vejo pessoas nas ruas a dormir, eu vejo as pessoas no onibus cansadas, vejo pessoas a minha volta em grande sofrimento... pelas pressões, pelos acasos, pelas necessidades. O que for... aonde se olha com atenção é possível enxergar.
Abandonos da alma, do corpo e suas misérias. Falta de tempo. Intolerância com os outros. Intolerância consigo mesmo...
Enquanto isso, há quase meio século, no Colônia, um dos principais Hospicios de Barbacena, modelo para a estruturação de escolas e prisões, matou quase sessenta mil pessoas em duas décadas.
Mortes de frio, de abandono, ou de extermínio, nada que conste na causa mortis de ninguem. Muitos dos pacientes do Colônia ali haviam sido internados com o seguinte diagnóstico: Tristeza.
[E ainda dizem vou morrer por causa da Coca.]
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Não sei como se referem aos suicídios por ingestão de medicamentos, ou quando alguem se corta, se enforca, ou se joga de algum lugar. Também não diferenciam nos acidentes de carro, a causa mortis de quem estava tonto no volante e quem não...
A morte é por "parada cardíaca" e não de "tristeza" ou de "falta de sentido no mundo". Bom, raramente também reportamos nosso desgosto, ao ponto de deixarmos claro os motivos que tem nos matado, no atestado, a falência multipla dos orgãos, o infarto fulminante, não vão dizer do desgosto e da dor, não vão dizer da angustia.
Não se trata de querer que conste tais coisas no atestado de obito de alguém. Até mesmo porque não sabemos quando morrermos "de fato", mas morremos, um pouco, todo dia... Todo mundo morre, várias vezes na vida, antes de morrer "da vida".
Todos os dias quando volto pra casa, eu vejo pessoas nas ruas a dormir, eu vejo as pessoas no onibus cansadas, vejo pessoas a minha volta em grande sofrimento... pelas pressões, pelos acasos, pelas necessidades. O que for... aonde se olha com atenção é possível enxergar.
Abandonos da alma, do corpo e suas misérias. Falta de tempo. Intolerância com os outros. Intolerância consigo mesmo...
Enquanto isso, há quase meio século, no Colônia, um dos principais Hospicios de Barbacena, modelo para a estruturação de escolas e prisões, matou quase sessenta mil pessoas em duas décadas.
Mortes de frio, de abandono, ou de extermínio, nada que conste na causa mortis de ninguem. Muitos dos pacientes do Colônia ali haviam sido internados com o seguinte diagnóstico: Tristeza.
[E ainda dizem vou morrer por causa da Coca.]
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Agulhas...
Tenho uma dor.
Como mil agulhas na pele.
Por dentro,
entre os músculos,
encravadas nos meus ossos.
Correndo pontiagudas pelo sangue.
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Como mil agulhas na pele.
Por dentro,
entre os músculos,
encravadas nos meus ossos.
Correndo pontiagudas pelo sangue.
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domingo, 6 de outubro de 2013
Três meses...
Chegou simpático, dizendo sobre o frio que deve fazer hoje a noite. Carregava um cobertor verde e preto, camisa, branca e azul, uma calça jeans simples e sapatos, alguns cabelos brancos se insinuavam a partir da têmpora indo até atrás de sua orelha, o restante era castanho, mas quase meio acinzentado. O rosto e era magro, como magro era o homem, sentou-se ao meu lado.
Eu concordei, falei algo sobre a mudança de tempo, e ele comentou que a noite seria brava...
"Uai, brava por quê?"
"Ah, vou passar a noite no hospital"
"Oh, tá com alguém internado lá?"
"Não, não, vo só passar a noite lá mesmo. Amanhã tento conseguir carona pra Taubaté."
e continuou...
"É Cancêr, no figado, no pulmão, hepatite C, não sei o que mais... Agora não tem mais jeito."
Me falou que trabalhou 5 anos com veneno em Minas, e que Minas e Góias eram muito parecidos, que ele foi muito bem recebido nos dois lugares. Olhava para longe, para o tempo, alguma lembrança lhe passava diante dos olhos enquanto dizia aquelas frases, lembranças que eu só acompanhava de fora.
Gostava de dormir no galpão da fábrica que trabalhava, em três corações. Dizia que era mais fresco, melhor, mesmo que o veneno ficasse ali, todo exposto. Não tinha mais os pais, nem nenhum parente próximo, a dúvida me tomava à medida em que conversávamos... "Por quê Taubaté?"
Ele era dali de perto, de uma cidadezinha proxima a Aparecida do Norte. Mas não era pra familia que retornava, disse que ia fechar um negocio de uma firma, e talvez conseguir algum dinheiro. Tinha vindo parar em campinas internado, quando descobriu do que se tratava... decidiu abandonar o tratamento.
Assinou a documentação que o declarava responsável por não seguir com o tratamento que poderia lhe ceder alguns meses mais de vida. Carregava um baita sorriso enquanto dizia:
"Ah, finalmente, poder descansar em paz."
Olhei, meio assustado, não sabia se se referia ao hospital, onde passaria a noite. Ou se se referia à propria morte, que não tardará muito a chegar. Acho que era mais minha recusa em ver, porque no fundo eu sabia, que ele se referia a seu próprio fim...
"Eu não tenho medo não, muita gente que ouve não acredita, mas eu não tenho medo. Por que que eu vou ter medo?"
"Viver até os oitenta, para quê? A gente já tem que passar por tanta coisa até os trinta. É tanto sofrimento no mundo..."
E disse do nosso desespero em estender nossa longevidade e da tolice que acreditava ser aquilo.
Confessou, no entanto - sua ansiedade, com as palavras, as mãos e os olhos. Citou para mim alguns trechos da Biblia, apesar de não seguir nenhuma religião. É que queria estar mais próximo de Deus já que seu fim estava anunciado.
Disse as frases de alguns profetas... que diziam sobre a vida maior, que vinha depois da vida, que nossa vida - essa vida - não passava de um sopro de grãos de areia contra o vento.... que não era mais que "como contar histórias, onde mal se começa e já está terminando"...
Hoje eu conto a sua, sabendo que em breve, mal começada, acabará..
Toda a areia soprada contra o vento...
O encontro com nosso destino comum.
E ele, "seu" Sérgio, seguiu para o Hospital, e em segredo, lhe dedico essas palavras.
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Eu concordei, falei algo sobre a mudança de tempo, e ele comentou que a noite seria brava...
"Uai, brava por quê?"
"Ah, vou passar a noite no hospital"
"Oh, tá com alguém internado lá?"
"Não, não, vo só passar a noite lá mesmo. Amanhã tento conseguir carona pra Taubaté."
e continuou...
"É Cancêr, no figado, no pulmão, hepatite C, não sei o que mais... Agora não tem mais jeito."
Me falou que trabalhou 5 anos com veneno em Minas, e que Minas e Góias eram muito parecidos, que ele foi muito bem recebido nos dois lugares. Olhava para longe, para o tempo, alguma lembrança lhe passava diante dos olhos enquanto dizia aquelas frases, lembranças que eu só acompanhava de fora.
Gostava de dormir no galpão da fábrica que trabalhava, em três corações. Dizia que era mais fresco, melhor, mesmo que o veneno ficasse ali, todo exposto. Não tinha mais os pais, nem nenhum parente próximo, a dúvida me tomava à medida em que conversávamos... "Por quê Taubaté?"
Ele era dali de perto, de uma cidadezinha proxima a Aparecida do Norte. Mas não era pra familia que retornava, disse que ia fechar um negocio de uma firma, e talvez conseguir algum dinheiro. Tinha vindo parar em campinas internado, quando descobriu do que se tratava... decidiu abandonar o tratamento.
Assinou a documentação que o declarava responsável por não seguir com o tratamento que poderia lhe ceder alguns meses mais de vida. Carregava um baita sorriso enquanto dizia:
"Ah, finalmente, poder descansar em paz."
Olhei, meio assustado, não sabia se se referia ao hospital, onde passaria a noite. Ou se se referia à propria morte, que não tardará muito a chegar. Acho que era mais minha recusa em ver, porque no fundo eu sabia, que ele se referia a seu próprio fim...
"Eu não tenho medo não, muita gente que ouve não acredita, mas eu não tenho medo. Por que que eu vou ter medo?"
"Viver até os oitenta, para quê? A gente já tem que passar por tanta coisa até os trinta. É tanto sofrimento no mundo..."
E disse do nosso desespero em estender nossa longevidade e da tolice que acreditava ser aquilo.
Confessou, no entanto - sua ansiedade, com as palavras, as mãos e os olhos. Citou para mim alguns trechos da Biblia, apesar de não seguir nenhuma religião. É que queria estar mais próximo de Deus já que seu fim estava anunciado.
Disse as frases de alguns profetas... que diziam sobre a vida maior, que vinha depois da vida, que nossa vida - essa vida - não passava de um sopro de grãos de areia contra o vento.... que não era mais que "como contar histórias, onde mal se começa e já está terminando"...
Hoje eu conto a sua, sabendo que em breve, mal começada, acabará..
Toda a areia soprada contra o vento...
O encontro com nosso destino comum.
E ele, "seu" Sérgio, seguiu para o Hospital, e em segredo, lhe dedico essas palavras.
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