terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vida em desfazimento...

Quando caí de folha,

Matei a dente um rato, e me descobri assim, tão somente só.
E tudo aquilo que me era, me pesava mais que asfalto ou arranha-céu.

Aí que vi e sobretudo, senti o cheiro do verde que matei a pau.
Aí quem me dera  a sorte do esquecimento...

Essa pedra que vai a lama tanto se merece e desfaz...

Mas a parte ruim não é essa, é lembrar-se pedra.


Da memória dura, e os passos à pressa.
Meus curtos horizontes, espelhos em identidades.
Espelhado em paredes...

Até que não...

E daí em diante, eu simplesmente não sei mais...

.

Vida em progresso.

Adiante vai, máquina.

Maquinando, maquiando.
Planos e maquinagens.
Adiante sempre adiante,
Nenhuma memória que não se preste ao futuro.
Toda convicção a vapor, sem espaço para moderações -
Todas as respostas ali, servidas à vontade.

A serviço da vontade.

Servidão voluntária do ego...
À serventia do culto do "Eu".

Vida em maquina.

A maquinar.

A maquiar...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ser... e não...

As coisas que antes identificavam, somem... ou estão sumidas.
Um certo tipo de presença, certas visões de mundo, lugares - muitos lugares... em que não estou.
Vozes que não sou (mais), pelo menos por enquanto...


Parece que tenho estado num esforço intenso de me apartar de tudo aquilo que antes eu identificava como eu. E embora em muitos aspectos eu não alcance, n'outros eu me afastei bastante... e o que tenho descoberto é que o esforço de se anular é muito parecido com o esforço de se afirmar.

Para as coisas irem, raramente se precisa de um esforço contrário... "Deixar ir" e "esforço" raramente combinam... Porque em tudo o que colocamos esforço, devotamos certa atenção, mesmo quando o esforço é apagar, deixar de se identificar... Negar e afirmar se tornam parecidos... ambos são esforços que fixam o "eu", quem somos, ou acreditamos ser... E nesse sentido, diminuir o eu,  não requer um esforço de "destruir" as coisas com as quais nos identificamos, mas a paz com a condição que estamos, o entendimento de sua temporalidade e causalidade.

E preocupado com o esforço de "fazer não ser mais", não conseguimos paz para realizarmos tais coisas...



.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Dos dias e das faltas...

O Juiz mais severo é o juiz de dentro... falei isso um tanto de vezes. Acho que nunca parei pra ouvir... se duvidar eu dizia isso mais pra mim mesmo do que para quem estava dizendo e não me dei conta... Hoje, fui alcançado. E lá do fundo, lamentei terrivelmente tudo o que aconteceu. Lamento. E senti sua falta... E é díficil não remeter sua falta a algo que eu tenha faltado, às minhas tantas faltas... e hoje eu percebi que não lembrar da falta que você faz, também não me deixa sair de onde estou.
Uma vez me disseram que a imagem que eu tenho de ti em mim é mais severo do que você poderia sequer sonhar em ser, e estão corretos. Outra vez me perguntaram porque eu estava me punindo de maneira tão severa. E de novo, estavam corretos, e eu nem entendi na época... Estava tudo silenciado...

Foi a reação que consegui, creio... Pra admitir o real, acolhe-lo, é preciso lidar com uma grande quantidade de coisas, ou talvez, só a mais simples. Você não está mais aqui. Talvez a culpa seja uma vontade forte de desempoderar a morte, de trazer a responsabilidade pra mim, de modo que talvez, por outro curso de ação que eu tivesse, você ainda pudesse estar aqui... mas isso ignora teus sentimentos, tuas escolhas... Isso ignora que no tempo passado, eu agi como poderia agir naquele tempo, e não agiria de outra maneira, porque aquele era o tempo...

E para eu encontrar paz, eu preciso te reencontrar nessa tua nova condição. De pessoa ida, pessoa querida que se foi, do modo como foi... E só assim, o juiz severo irá parar de proferir suas sentenças em minha vida.

E eu posso admitir a minha saudade. E a minha grande admiração, a despeito de toda dor.


Que saudade...


.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ordem.

E tudo estará em perfeita ordem.
Haverá limpeza e silêncio,
Sem companhias incomodas, sem assuntos desagradáveis.

E tudo estará conforme o planejado,
Sem nada fora do lugar, com todas as coisas funcionando perfeitamente...
Como deveriam funcionar.

E tudo estará arrumado e cheiroso,
Todas as tarefas cumpridas,
Não haverá mais , desavença, desfeita, algo por fazer.

Tudo correrá conforme o tempo correto.
Na rotina os ponteiros dos gestos,
Úteis , funcionais e, portanto, verdadeiramente dignos.

Tudo ficara em perfeita alvura,
Será feito de luz e nobreza,
Em nada ressoará treva, lentidão ou preguiça.



Não haverá mais - incompleto...

terça-feira, 19 de abril de 2016

Tempo...

Sempre díficil dizer do Tempo...
As vezes prefiro me esconder atrás de Tempos,
Para não cair no risco, ou não assumir a responsabilidade,
De dizer - que aqui é quase uma forma de tocar - Tempo...

Sempre gostei da palavra inexorável,
   Rasgada e dura como soa, incomoda aos ouvidos,
Tão parecida quanto aquilo que define,
Acho que é a que tem mais alcance para primeiro dizer do Tempo...

As rugas, as marcas nas mãos, a perna machucada,
Os olhos que aos poucos deixam de ver,

As pedras que se dissolvem em areia,
   Montanhas que se curvam em pó...

Estrelas que nascem e morrem,
  E cujas luzes permanecem para nós no céu, mesmo depois de terem se apagado;

Faces que aparecem e desaparecem de nossas vidas,
 Que nas pontas dos dedos, encontram-se, e depois, não mais...

Tempo do que pode ser - a expectativa, tempo do que poderia ter sido, lamentação,
Tempo do que foi, passado que observamos (e esquecemos), Tempo que é...

Sombras do relógio de Sol, ponteiros no pulso,
Algum tempo para dar corda no coração,

Tempo do contador, tempo das contas, tempo para a pressa...

e o tempo fora do tempo... do intangível, do inalcançável, do inimaginável...

Do alcance a distancia,
       Tempo,
         Perpassa
           Atravessa
             Expande
              Recolhe
                 Voa
                    Para...


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A pedra...

À pedra nem o próprio peso pertence. Posto que na lua , ou no fundo do mar , seria diferente. Diferente no sentir , diferente no modo ou a quantidade mesmo. O peso da pedra é condicional, depende de certas causas para ser como é.  Sendo assim, o peso da pedra é vazio de existência inerente...

À pedra não pertence a forma, posto que pode mudar e já foi de outras tantas formas que não consigo imaginar, em outras condições assumiria outras formas. Pode se tornar adorno, joia sagrada, ou uma  simples pedra sobre a qual penso a respeito...  Sua forma é portanto vazia de existência inerente...

À pedra não pertence o calor que possuía quando a peguei, logo se perderá se guardar em minha mochila ou se deixa-la exposta a chuva, assim como quente a encontrei, quando jogada ao Sol. Assim, o calor da pedra é condição, dependente de certas causas para que assim possa ser  - é vazio  de existência inerente...

À pedra não lhe pertencem seus tons, suas cores. Hoje são assim , meio acinzentadas, quase piche, marcadas de um amarelo escuro em algumas partes, em outro momento foram diferentes, em outros momentos serão. E assim as cores e tons da pedra, são condição, dependente das causas que a compõem neste momento... em outro momento outras, outras condições, outras cores... assim, as cores e tons da pedra são vazios de existência inerente...


À pedra não pertence a própria sombra, nem o nome... em outros lugares teria outros nomes, em outra posições outras sombras, sob a luz mais forte, sob o Sol oculto, ou do meio dia, ou escondida na mochila...


E assim, tudo que compõe a pedra não lhe é próprio, é apenas uma forma, que já foi de infinitas outras, e de infinitas outras será...

A pedra é vazia..

Assim como eu... o caderno, a caneta, a chuva e o cheiro do ônibus, as pessoas que nele estão, as pessoas em qualquer lugar, todo vento, todo sopro, todo silêncio e grito...


.