domingo, 5 de fevereiro de 2017

Lugares escuros...

Acabar sem querer,

Por tragar daquela loucura

Anunciada sina,


Dos lugares escuros,

Que não cabem nos discursos,

Nem nas convenções,

Mas que sem dizer, partilhamos.


Que hora ou outra, a arte imita,

Àquilo que a vida preferia esconder...

Ou dar-se a sorte do esquecimento...


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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Sobre amor...

Quero que meu amor seja livre da pretensão de guerra ou posse:
 Não tenho, nem pertenço, a ninguém que amo ou já amei...
 Assim não há quem ou que se conquistar, nem ser conquistado - desejo não ser, nem tornar ninguém, um "território" ou algo para ser tomado...

Quero abandonar qualquer pretensão de "imortalidade": Pessoas e sentimentos , mudam, de certa maneira, morremos várias vezes em nossas vidas (assim como o que sentimos) e várias vezes renascemos - nos recriamos, mudamos, até morrermos de fato... e ainda assim, muita incerteza paira sobre essa última morte...

Aliás, nem quero viver nessa separação entre "o que sentimos" e "o que somos", porque, de uma certa maneira, como ser senão através daquilo que sentimos?

Não quero ver as rupturas e separações sobre as lentes do fracasso. Não que não existam relações bastante infelizes e pouco saudáveis, mas rupturas não são necessariamente evidência disso. E ao menos em minha experiência, vejo que é mais comum de se insistir em algo que faz mal, que simplesmente aceitar "o fim" (até mesmo porque vivemos orientados por noções de fracasso e sucesso e nos pesa muito o sentimento de que algo "deu errado" então muitas vezes, em grande angustia, tendemos mais a persistir do que a perceber...)

E assim sem poder ter ninguém, eu gostaria apenas "estar com", e reconhecendo nossa limitação no tempo, "pelo tempo que for possível"... e tornar mais pleno o presente ao invés de minguar em saudades do passado ou nas possibilidades daquilo que poderia ser e não foi...



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"Destornar"

E ver tudo aquilo que um dia você acreditou ser, se desfazer.
E se tornar novo, n'aquilo que caminhou por tanto tempo,

Mais e menos se tornam mais próximos.
O que se tem a dizer diminuí.

E se abre a porta a outros sons...

De outras vozes,

Outras vezes

e sabores.


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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Silêncio e kung fu...

Aos meus companheiros de treino, os de muito tempo os de pouco e os que ainda não esbarrei...

Quando falava, falava muito. E acabava por ouvir pouco.
Num determinado ponto, sobrecarreguei tanto as coisas, que tornei o ambiente insuportável (para mim e provavelmente pra outros.)

Perdi de vista a beleza das formas com as quais as pessoas se apropriam do kung fu. E passei a acreditar que minha relação era de alguma maneira "mais verdadeira"... Tal convicção me afastou e me isolou. Na época pensei ser culpa dos outros, que acreditava que não levavam a tradição a sério...

Desconsiderando o quanto desconheço. Desconsiderando (ou diminuindo) outras experiências e possibilidades... e por fim tornando impossível minha própria prática.

Não é um mea-culpa, nem um pedido de desculpas, nem um fazer de vitima para ganhar admiração alheia, é uma reflexão, mais seca que o usual sobre o que me aconteceu.

Eu dava kung fu por algo "garantido" pra mim... e por muito pouco não me isolei completamente.

E sou, de fato, muito grato, pela maneira como fui recebido de volta.

Hoje então, eu prefiro o recuo, o espaço, e tentar prestar mais atenção nos sentidos que as pessoas constroem. Eu que ando com as certezas meio abaladas , me parece mais que apropriado tal movimento... e parar de supor saber tanta coisa...

E agora, mais que nunca, a metáfora da xícara cheia faz sentido...


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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vida em desfazimento...

Quando caí de folha,

Matei a dente um rato, e me descobri assim, tão somente só.
E tudo aquilo que me era, me pesava mais que asfalto ou arranha-céu.

Aí que vi e sobretudo, senti o cheiro do verde que matei a pau.
Aí quem me dera  a sorte do esquecimento...

Essa pedra que vai a lama tanto se merece e desfaz...

Mas a parte ruim não é essa, é lembrar-se pedra.


Da memória dura, e os passos à pressa.
Meus curtos horizontes, espelhos em identidades.
Espelhado em paredes...

Até que não...

E daí em diante, eu simplesmente não sei mais...

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Vida em progresso.

Adiante vai, máquina.

Maquinando, maquiando.
Planos e maquinagens.
Adiante sempre adiante,
Nenhuma memória que não se preste ao futuro.
Toda convicção a vapor, sem espaço para moderações -
Todas as respostas ali, servidas à vontade.

A serviço da vontade.

Servidão voluntária do ego...
À serventia do culto do "Eu".

Vida em maquina.

A maquinar.

A maquiar...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ser... e não...

As coisas que antes identificavam, somem... ou estão sumidas.
Um certo tipo de presença, certas visões de mundo, lugares - muitos lugares... em que não estou.
Vozes que não sou (mais), pelo menos por enquanto...


Parece que tenho estado num esforço intenso de me apartar de tudo aquilo que antes eu identificava como eu. E embora em muitos aspectos eu não alcance, n'outros eu me afastei bastante... e o que tenho descoberto é que o esforço de se anular é muito parecido com o esforço de se afirmar.

Para as coisas irem, raramente se precisa de um esforço contrário... "Deixar ir" e "esforço" raramente combinam... Porque em tudo o que colocamos esforço, devotamos certa atenção, mesmo quando o esforço é apagar, deixar de se identificar... Negar e afirmar se tornam parecidos... ambos são esforços que fixam o "eu", quem somos, ou acreditamos ser... E nesse sentido, diminuir o eu,  não requer um esforço de "destruir" as coisas com as quais nos identificamos, mas a paz com a condição que estamos, o entendimento de sua temporalidade e causalidade.

E preocupado com o esforço de "fazer não ser mais", não conseguimos paz para realizarmos tais coisas...



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