sábado, 22 de abril de 2017

Sobre "13 Reasons Why", parte 2.

Bom, como prometido, continuo a reflexão a respeito da série "13 Reasons Why", agora tendo quase terminado a série, estou no 12° episódio. Confesso: a perspectiva de saber a forma como ela irá suicidar não me agrada, não só pelo que já ouvi (o fato de ser detalhado demais) , mas porque eu tenho um problema pessoal com "cortes", mas enfim... continuando a ver a série acredito que seja importante focar essa parte, que talvez seja a última, em pensar sobre a personagem, Hannah Baker.

Antes de começar a falar do personagem, creio que se faz necessário dizer porque continuo a escrever. Ouvi muitas opiniões sobre a série, muitas geraram boas conversas e como disse no texto anterior, a razão pela qual comecei a  escrever, mas uma razão em particular move este escrito: Eu não acredito que a série é algo sobre a qual não podemos falar sobre. Eu certamente não a recomendaria para alguém em dificuldades, mas dificilmente vejo razão para censura-la ou recomendar "não assistir" às pessoas, inclusive porque esse tipo de recomendação costuma ter o efeito contrário. Ao invés disso proponho outro caminho: Sejamos críticos, vamos analisar a construção do discurso e dos personagens;

O poder que a narrativa tem sobre a gente se dá porque ela cria pontos com os quais nos identificamos, personagens, certas formas de narrativa, a maneria de compor essa narrativa: a escolha das músicas, do uso da luz, o modo como os personagens são apresentados. Eu acredito que por observar mais atentamente a esses aspectos da série é que podemos tirar um pouco desse "poder sombrio" que estes textos que recomendam não assistir a série apontam. Inclusive, porque só se discutirmos a série e tivermos o cuidado de analisar como ela constrói sua narrativa é que poderemos criar pontes de dialogo com as pessoas que mais se sentiram identificados com essa personagem que é Hannah Baker, que possam se sentir identificados com a lógica do suicídio e refletirem isso na série. Então sim, se você por acaso esbarrou com este texto porque a série te acertou em cheio, eu faço um pedido - por favor, fique e leia até o final se puder. E se desejar, comente;

Hannah é um personagem complexo e aponta para a questão amarga que é o suicídio... Dizer simplesmente "suicídio não é uma alternativa" na tentativa de tapar o buraco que a série aponta é esquecer que do ponto de vista das pessoas que sentem-se como a personagem da série podem ver sim o suicídio como alternativa. Se não pudermos observar que essa noção pode fazer (e faz) sentido para muitas pessoas nos desconectamos delas, perdemos as poucas pontes de dialogo que podemos construir e essa, por mais ambivalente que seja, talvez seja uma das mais importantes para pessoas que consideram a possibilidade de prevenção do suicídio.

Existe algo que a série não aponta muito claramente, ela apresenta, mas de maneira tão sutil, de tal forma que outros aspectos acabam tomando uma grande parte das "luzes" e esses aspectos são os que as pessoas mais facilmente identificam, como por exemplo "como as pessoas são escrotas", ou "ensino médio é uma bosta" ou  a "sociedade é uma merda", mas.... cá pra nós... essa é a parte mais superficial e provavelmente a menos importante que a série aponta... 

Gostaria de apontar para esse sutil aspecto construído em torno de Hannah e construído também ao redor de Clay, que é a raiva. A revolta de Clay, e também a de Hannah, parecem a primeira vista se voltar contra o mundo. Um mundo cruel e nada empático, que os força a lidar com situações que não lhes cabem, essa impressão mais imediata nos leva a essas conclusões mais superficiais que falei acima e elas perdem de vista a sutileza que existe nessa revolta: Ela é , no fim, uma revolta contra si mesma. Uma raiva que se volta ao próprio individuo e não pode ser construída em relação ao mundo externo, sem ser construída também de maneria interna - Hannah se coloca em sua própria lista, e se vê, como as pessoas que aponta, para além de redenção ou igualmente responsável na construção de sua morte, isso é poderoso, e ao mesmo tempo, muito comum, ao ponto que é muito difícil ver a série e não nos perguntamos sobre nossa conduta, não partilharmos em alguma medida dessa revolta/raiva/dor e não sentirmos um pouco disso em relação a nós mesmos... não?

Tenho a crença que não há nada que possamos sentir em relação ao mundo (raiva ou revolta, ou tristeza) que não impomos a nós mesmo com a mesma intensidade ou até mais. Porque possivelmente, qualquer fracasso do mundo, é, de algum modo nosso fracasso. Tendemos (ou as vezes até precisamos) ver assim, porque tal culpabilidade nos coloca no lugar onde podemos imaginar ter poder sobre certas situações, como Clay, quando começa a se questionar se matou ou não Hannah Baker, como Hannah, tanto nas situações a qual foi sujeita, tanto das situações que testemunhou, e fazemos isso a todo momento.  Encarar a alternativa em que não temos um "agir possível", seria diminuir nosso poder em relação a situações que consideramos revoltantes, não atribuir uma certa culpabilidade, tira do nosso alcance de visão nossa imaginação sobre esse "agir possível" para essas situações e as vezes não damos conta disso... e isso em alguma medida, é o que acontece com Hannah.

Por isso peço que retornem a essa personagem com uma outra possibilidade de olhar, sei que muitos partilharam da revolta dela, não vou dizer que esse sentimento não passou por mim, está aqui ainda, é uma das razões pra escrever. Mas não pensar apenas sobre essa revolta contra o mundo, perceber o quanto ela também é construtora de uma culpa interna, acho que isso não podemos perder de vista, porque é isso que da nexo a construção da ideia do suicídio para Hannah, a construção de si própria como alguém indesejável , alguém que fracassou, alguém tão responsável por toda aquela merda quanto os outros...

A construção dessa angustia para Hannah é algo que parece ser estabelecido antes da série: desde o começo de sua narrativa ela já se constrói de maneira negativa. Podemos pensar que talvez na experiência atual da personagem, talvez ela não se enxergasse da forma como as fitas a apresentam, e talvez as fitas a constroem de maneira negativa desde o primeiro episódio porque são fitas narradas pela pessoa que não enxerga em si mais nada que a possa manter viva. De uma forma ou de outra, não conseguimos ver como essa angustia começa, vemos sinas, podemos assumir várias coisas, mas tudo fica no campo da hipótese, ela vive coisas muito ruins, mas há algo que precede - uma depressão talvez? Qual seria seu passado antes de se mudar para aquela cidade (que aparentemente não tem nome...)?

Há algo que esses textos que previnem para não ver a série que talvez seja importante de ser observado. Não tratar a "depressão" da personagem, ou o que quer que ela tenha , de maneira mais direta, incomodou muita gente. Evidente que está ali, novamente de maneira sútil e obfuscado pela palavra "bullying" ou pela escrotidão da turma envolvida com as fitas... a série pode não explorar esse aspecto de maneira mais obvia ou direta mas não significa que nós espectadores não podemos observar, a série trata da tristeza/angústia de Hannah, mas a constrói de maneira direta: através da narrativa de quem está na situação de dor/angustia, através de como ela própria constrói o nexo de seu suicídio. Isso dá margem para entender que a série não dá uma alternativa ao suicídio, mas me pergunto se a série tem que fazer isso, e em segundo lugar, qual é o nosso lugar enquanto espectador, vamos só aceitar o que a narradora (Hannah) constrói sem observar o lugar de onde fala?

Se tomarmos tudo o que Hannah diz ao pé da letra, acho que perdemos o ponto. Hanna narra para si mesma o nexo do seu suicídio, de uma certa maneira, ela gravou as fitas para si mesma. Uma forma de organizar a experiência, de compreende-la que daria sentido inclusive ao "depois", que teria um acerto após sua morte, ou pelo menos uma tentativa, uma esperança que ela não poderia ver cumprida uma vez que não estaria viva, mas a lógica é bem elaborada, e talvez necessária para que ela seja capaz de efetivar sua decisão.

Se pudermos enxergar isso, creio que enriquecemos o universo que a série apresenta, enriquecemos a própria personagem. Hannah parece possuir uma tristeza anterior, ou no mínimo um sentimento ruim contra ela própria - isso aparece nos primeiros episódios - a insegurança diante da nova escola, a vergonha diante da situação apresentada no primeiro episódio, a vergonha diante de Clay , inclusive há uma culpabilidade implícita, embora a fita aponte para Justin, ela também aponta para a própria  Hannah; E assim se dá em quase todas as outras fitas, em quase todas ela, quase como se houvesse uma pergunta escondida da personagem: "Poderia eu ter feito algo diferente? Teria isso mudado alguma coisa?"

Nesse sentido, Hannah se questiona o tempo todo, o próprio comportamento e sua "culpa" nessas histórias, a personagem possui essa raiva, ou angustia, de si, que muito bem se traduz na fita de Clay quando ela diz: "Eu te arruinaria", e é nesse lugar que ela precisa ser observada, não como uma voz onisciente sobre os fatos, não como uma verdade única ou ultima sobre o que aconteceu, uma verdade para ela própria certamente, como disse, acredito na possibilidade que o exercício de criar as 13 fitas era fundamental para que ela pudesse ter força para escolher, centrais na criação de uma lógica que fundamenta a ação de tirar a própria vida. 


E talvez a critica de que a série não apresenta "uma alternativa" para o suicídio, perde o ponto: não é sobre isso a série, a série não tem esse objetivo redentor, ela é uma narrativa sobre uma pessoa que narra - quase como se estivesse tecendo - o nexo do próprio suicídio, é de se esperar que Hannah não visse para si mesma outra alternativa, romper com isso quebraria a coerência da série. E sinceramente, acho que a série não tem que ser "band-aid" pra essa nossa necessidade de alternativa. Se a série apresentasse uma alternativa, romperia com toda a lógica criada desde o nome e durante todo seu desenvolvimento,  e em que medida não perderia seu alcance? Em que medida não deixaria de dizer às pessoas que enxergam sentido na lógica do suicídio?

E eu creio que é importante alcançar as pessoas para quem essa lógica faz sentido. Por que creio que pessoas que começam a ver sentido nessa lógica perdem pontes de dialogo com outras pessoas, se veem separadas de uma maneira tão fundamental e abismal, que encontrar com algo que alcance, talvez, possa permitir uma abertura.

E sobretudo, acho que é dentro dessa crueza que talvez precisemos olhar o problema: com a clareza de que para algumas pessoas, faz sentido esse desejo. Não podemos ignorar isso com frases de efeito atribuindo um valor inerente a vida quando existem pessoas, e aparentemente muitas, que não dão isso por garantido... aliás.. quantos de nós conseguem dar por garantido o valor da vida? Quantos sabem ou possuem força de crença capaz de sustentar isso como essa universalidade? Crença no valor da vida é uma construção e pode ser fragilizada ou destruída conforme nossas experiências... e aí, como lidar com isso?

Eu escrevo porque recomendar as pessoas que não vejam, não basta mais. A série vingou, está sendo assistida e discutida por muita gente, diz respeito a experiência de muita gente, não adianta mais insistirmos em recomendações para não ver. Precisamos ter uma posição que nos permita ser capazes de dialogar com as tantas pessoas que estão entrando em contato com a série em tantas realidades emocionais diferentes.

Agora...  eu recomendaria a série para algum amigo em dificuldade ou para pessoas que já encararam o suicídio como possibilidade? Dificilmente, mas não recomendaria muitas coisas na real... Acho que o que eu realmente não recomendaria seria "Dogville" mas isso é conversa pra outro texto... Eu não recomendaria a série porque eu iria preferir chamar a pessoa pra conversar ou tomar um café, não por causa da série em si, mas porque ao meu ver, nesse tipo de situação, o mais fundamental não é tanto a respeito do que eu quero ou não levar para os outros, mas o que eu posso ouvir... e se eventualmente viesse a tona a questão sobre a série, talvez seja mais importante ver, e saber do que se trata, do que fechar...

Bom, para finalizar, eu tenho esperança/impressão de que esse texto vai esbarrar em alguém que entrou em contato com a série e não tá legal...

- Eu não presumo saber quer que tenha passado, qual realidade de seus sentimentos, é difícil falar do coração dos outros, vastos como são. Não pretendo também dizer que "vai ficar tudo bem" porque eu realmente não sei, mas, eu sinceramente gostaria... mas fundamentalmente, eu gostaria que soubesse que, embora nós consigamos realmente nos sentir separados do nosso entorno, de forma que isso as vezes parece que vai nos partir em mil pedaços, ou como se estivéssemos num abismo tão fundo que nosso grito mais angustiado não poderia ser ouvido.. acredito que nossa mente nos prega peças... que talvez seja importante não dar por garantido esses sentimentos... nos permitir outras possibilidades de sentir o mundo, que as vezes não são familiares, não são nossas... e aceitar o fato de que tentar não é uma garantia de que novas amarguras não virão, ou que velhas angustias não poderão retornar... mas, ao menos, uma possibilidade, de nós mesmos, nos dar uma chance, apesar da angustia, apesar da dor... se for possível...





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sábado, 15 de abril de 2017

Sobre "13 Reasons Why" , parte 1.

Esse escrito não se pretende final, é na real um exercício de reflexão, registrado para que eu mesmo possa acompanhar o que já escrevi/pensei a respeito da série "13 Reasons Why". Mas por que escrever sobre a série em primeiro lugar? Bom, tenho sido perguntado várias vezes acerca da série, o suicídio não é exatamente um tema "longe" da minha história, para os desavisados, meu pai se suicidou, então, eu tive, e até precisei, em várias medidas, dar espaço ao assunto e pensar sobre, talvez ainda mais complicado, sentir sobre. E falando em sentir sobre, vamos à série...

Bom, em primeiro lugar, eu ainda não terminei de assistir, não sei se chegou a um fim, vi os 5 primeiro episódios e já tinha conversado com algumas pessoas a respeito. Como sei que o assunto vai continuar fervendo por algum tempo, decidi escrever a respeito. Minha primeira impressão sobre a narrativa que está sendo construída na série, é que ela precisa ser avaliada com cuidado: a série parece ser narrada da perspectiva da personagem que faleceu, Hannah, quando na verdade é narrada quase que na perspectiva do personagem que recebe suas fitas, Clay Jensen. E quando digo que a narrativa acompanha, isso vai além de simplesmente como a história desenrola os fatos, mas que a história se passa do ponto de vista do universo emocional dessa personagem, de seu conflito com a perda de alguém que amava, com sua culpa e imensa dificuldade em lidar com o ocorrido - e esse universo aparece de modos hora mais explicitos, n'outras mais sutil.

Acompanhar o drama de Clay te faz criar simpatia pelo personagem, e talvez aqui a série traça sua primeira linha na areia: existe uma divisão que aparece logo no começo, que não sei se permanece, que é entre os personagens que são "bons" e os "ímpios", sendo que essa parte "boa" da qual Clay faz parte, muitas vezes, no contraste com suas contrapartes "ímpias",  levadas a se questionar se são tão boas assim, os ímpios que seriam responsáveis indiretos (ou diretos?) pelo suícidio de Hannah seriam os únicos responsáveis, ou teria ele (Clay) uma parte dessa culpa?

Esse recurso narrativo bastante elaborado tem duas consequências, além de serem um modo de desenvolver a narrativa: Elas ajudam a criar uma simpatia pelo personagem principal (Clay) ao mesmo tempo que ao questionar esses poucos personagens "bons" que aparecem colocam a pergunta para nós, espectadores. Nesse sentido, nos faz dividir alguma das dimensões da angustia do personagem principal: seja na sua dor, seja na sua vontade de "justiça", somos em alguma medida responsáveis pelo suicídio de alguém ao nosso redor?

Não há resposta fácil a essa pergunta. Nem creio que se explorada com cuidado seria possível obter uma resposta, porque as variáveis são infinitas, perder as especificidades das questões é perder a própria questão. Daí um primeiro incomodo que a série causa é que ela tende a nos levar para a "narrativa da culpa", ela não complexifica a questão (não até o momento), focando-se na dor da personagem principal e explorando um enredo que culturalmente nos afeta - do amor que poderia ter sido e não foi ou quase foi, dentro de um dos tabus sociais mais difíceis de lidar que é o suicídio - a série estabelece logo de inicio uma tensão em torno da possível culpabilidade dessa personagem e um ótimo recurso para nos manter tensos querendo assistir ao próximo episodio porque de alguma maneira a "redenção" da personagem principal poderia representar para nós algum tipo de redenção. Ou ainda, do cumprimento de uma "justiça" para Hannah... o que torna ainda mais complexa a questão, porque, em se tratando dos mortos, como se busca justiça? Será que é aos mortos a que essa justiça se presta, ou é para os vivos que sentem uma necessidade de fechamento ou sentido para a história?

Entre fitas gravadas pela personagem, memórias "vividas" onde Clay atualmente vê sua falecida amiga nas situações em que as fitas apresentam, combinadas com uma seleção de músicas e a construção narrativa do vinculo entre as duas personagens, é difícil não sermos afetados e isso não é um problema. Pode vir a ser um problema se não pudermos perceber que a série tem uma forma de construção discursiva bem elaborada - uma intenção - e que assistir um episódio e ir pensar sobre suicídio provavelmente te fará descer a "Avenida da Dor na Esquina com a Culpa", facilmente trará algum tipo de revolta ou vontade de justiça e poderá trazer uma resposta fácil a pergunta sobre a responsabilidade sobre o suicídio e isso pode ser problemático...

Uma coisa é preciso, no entanto, ser dada a crédito, a série expõe de maneira muito válida e rica de se pensar a respeito sobre o tipo de ambiente que podemos criar e viver. Sobre naturalidade com que algumas violências ocorrem a todo o momento e nos acostumamos com elas: violências contra os outros, violências contra nós mesmos. Relações que constroem uma teia de violências e criam um ambiente violento e consequentemente uma cultura da violência e naturalização da mesma - no caso da série uma cultura de "high school" norte americana, fundamentada em competição, em enquadramento a turmas, ao medo de ser exposto, machismo, entre muitas outras coisas.  E esses são problemas sobre os quais precisamos pensar a respeito e que são , em alguma medida sim, construturas da realidade do suicídio. "Culpadas" eu acredito ser um termo incorreto, porque não dá conta da variabilidade da situação, em que contextos pode ocorrer e como foi construída pelo suicida, e porque em ultima instancia no acredito que o ato do suicídio é um gesto autoral, uma revolta contra uma realidade que se impõe a todo momento, muitas vezes de maneira esmagadoramente violenta, contra qual o autor se insurge e num gesto radical rompe com ela. A violência da realidade certamente faz parte do nexo de sentido que o suicida constrói mas é esse nexo que é a narrativa do suicida que interliga fatos separados no tempo e as vezes não correlatos em um eixo central e poderoso para o qual a única resposta ou "saída" é a morte que tem um caráter de ação que precisa ser considerado ao se pensar sobre o suicídio. 

Não se trata de culpar a vítima, mas dar voz a sua ação, considera-la sujeito de sua ação, tomada ante uma determinada realidade que ela percebe - a realidade é parte da construção, não responsável, o suicida não é apenas a vitima, mas também agente.O extremo de achar que o mundo(externo) é culpado, perde de vista a voz do suicida, o extremo de achar que é uma decisão individual e separada não percebe que não tomamos decisão se não em relação com as coisas ao nosso alcance, as pessoas com as quais nos relacionamos, as situações a quais somos expostos/nos envolvemos.


E bom, para finalizar essa primeira parte, acho que é raso dizer que a série induz pessoas ao suicídio ou romantiza a questão, ela apresenta uma dureza dos fatos dentro de um nexo narrativo próprio que já apresentei o que eu acho que é importante de se estar atento ao assistir a série, mas trás questões fundamentais de serem pensadas - não apenas no sentido mais abstrato "da sociedade", mas de nós mesmos, e quando digo isso não no sentido de nos culpabilizar, mas de procurar aguçar nossa atenção para as tantas violências que naturalizamos e obviamente não apenas em relação aos outros mas também contra nós mesmos (aliás, tenho a impressão que toda violência que somos capazes de exercer para fora não consegue ser maior do que a que podemos exercer sobre nós mesmos, porém essa teoria ainda precisa ser posta a prova).


Mas alguém poderia justificar o suicídio em cima do fato de ter entrado em contato com a série? Sim, mas até aí praticamente qualquer coisa poderia ser construtora desse nexo, como disse anteriormente e insistindo nisso porque parece que é algo fácil de perder de vista: a particularidade de cada caso é fundamental de ser entendida, qualquer sentido mais geral, ou nexo fechado, não dá conta das tantas realidades de pessoas que cometem suicídio. E a personagem Hannah constrói um nexo narrativo, mas essa parte fica para a continuação desse escrito.

terça-feira, 7 de março de 2017

Imediatismo, prazer e tempo

Começo dizendo que esse escrito não tem por pretensão ser final. Não é conclusivo de nada, é um fluxo e continuará a fluir mesmo quando as palavras que o compõem cessarem..

Tenho parado para pensar com frequência sobre a questão do desejo dentro do que tenho lido a respeito do Budismo. Concordo com a análise de que vivemos correndo atrás de coisas bastante temporárias que acreditamos que nos trarão felicidade, mas acho que compramos essa busca, ao menos em nossa temporalidade, bastante inseguros do futuro desses "investimentos".

Realmente me desagrada o fato de colocarmos em termos tão economicistas as nossas relações: investimento, perda , prejuízo, ganho... etc...mas isso é assunto para outro escrito.

Não acho que as pessoas no geral vivem alheias a essa presença da instabilidade e mesmo assim construímos coisas no sentido de uma felicidade gera, em cima de relações bastante instáveis e de condições bastante variáveis e por isso sofremos...

Mas há outra coisas sobre o sofrimento e nossa relação com ele que não é tão óbvia. Conseguimos integrar bem certo tipo de sofrimento às nossas existências, aliás, até aprendemos bastante bem a mobilizar narrativas no sentido de alinhava-las dentro de um nexo, que nos constrói enquanto indivíduos - constrói ego.

E apesar de partilhar da ideia de que o fortalecimento do ego é outra porta pela qual muitos sofrimentos vão entrar, me parece que muitas vezes abrimos essa porta e damos boas vindas a esses sofrimentos.Como disse, essas narrativas da dor podem ser mobilizadas de maneira muito poderosa na construção do nosso imaginário sobre nós mesmos.

E esse imaginar... não posso/consigo condena-lo completamente. Nós sermos capazes de significar a dor em nossas vidas nos dá poder em relação a situações onde nos sentimos extremamente desempoderados.
E mesmo sendo capaz de observar, acredito sem condições de emitir um julgamento a respeito desse tipo de atitude... consigo avaliar minha própria existência e verificar o meu desejo de me desvincular dessas coisas, mas não creio que o que funciona pra mim necessariamente funcionará pro outro, acredito que oscilamos bastante nas coisas.

Os prazeres que nos ocupam, por mais que possuam temporalidades bastante restritas e que depositar confiança de felicidade deles nos torne bastante infelizes, em grande medida aceitamos isso... não é como se todos vivessem inconscientes a isso... acho que ativamente fazemos a escolha pelo sofrimento (o que é em alguma medida bastante sinistro)

Mas não acho que temos condições de julgar essa escolha. Quem está nela, quem deseja sair dela, quem definitivamente conseguiu sair...

O que podemos fazer senão aprender novas formas de lidar com a gente mesmo e se compreender em relação aos nossos atravessamentos?




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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Lugares escuros...

Acabar sem querer,

Por tragar daquela loucura

Anunciada sina,


Dos lugares escuros,

Que não cabem nos discursos,

Nem nas convenções,

Mas que sem dizer, partilhamos.


Que hora ou outra, a arte imita,

Àquilo que a vida preferia esconder...

Ou dar-se a sorte do esquecimento...


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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Sobre amor...

Quero que meu amor seja livre da pretensão de guerra ou posse:
 Não tenho, nem pertenço, a ninguém que amo ou já amei...
 Assim não há quem ou que se conquistar, nem ser conquistado - desejo não ser, nem tornar ninguém, um "território" ou algo para ser tomado...

Quero abandonar qualquer pretensão de "imortalidade": Pessoas e sentimentos , mudam, de certa maneira, morremos várias vezes em nossas vidas (assim como o que sentimos) e várias vezes renascemos - nos recriamos, mudamos, até morrermos de fato... e ainda assim, muita incerteza paira sobre essa última morte...

Aliás, nem quero viver nessa separação entre "o que sentimos" e "o que somos", porque, de uma certa maneira, como ser senão através daquilo que sentimos?

Não quero ver as rupturas e separações sobre as lentes do fracasso. Não que não existam relações bastante infelizes e pouco saudáveis, mas rupturas não são necessariamente evidência disso. E ao menos em minha experiência, vejo que é mais comum de se insistir em algo que faz mal, que simplesmente aceitar "o fim" (até mesmo porque vivemos orientados por noções de fracasso e sucesso e nos pesa muito o sentimento de que algo "deu errado" então muitas vezes, em grande angustia, tendemos mais a persistir do que a perceber...)

E assim sem poder ter ninguém, eu gostaria apenas "estar com", e reconhecendo nossa limitação no tempo, "pelo tempo que for possível"... e tornar mais pleno o presente ao invés de minguar em saudades do passado ou nas possibilidades daquilo que poderia ser e não foi...



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"Destornar"

E ver tudo aquilo que um dia você acreditou ser, se desfazer.
E se tornar novo, n'aquilo que caminhou por tanto tempo,

Mais e menos se tornam mais próximos.
O que se tem a dizer diminuí.

E se abre a porta a outros sons...

De outras vozes,

Outras vezes

e sabores.


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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Silêncio e kung fu...

Aos meus companheiros de treino, os de muito tempo os de pouco e os que ainda não esbarrei...

Quando falava, falava muito. E acabava por ouvir pouco.
Num determinado ponto, sobrecarreguei tanto as coisas, que tornei o ambiente insuportável (para mim e provavelmente pra outros.)

Perdi de vista a beleza das formas com as quais as pessoas se apropriam do kung fu. E passei a acreditar que minha relação era de alguma maneira "mais verdadeira"... Tal convicção me afastou e me isolou. Na época pensei ser culpa dos outros, que acreditava que não levavam a tradição a sério...

Desconsiderando o quanto desconheço. Desconsiderando (ou diminuindo) outras experiências e possibilidades... e por fim tornando impossível minha própria prática.

Não é um mea-culpa, nem um pedido de desculpas, nem um fazer de vitima para ganhar admiração alheia, é uma reflexão, mais seca que o usual sobre o que me aconteceu.

Eu dava kung fu por algo "garantido" pra mim... e por muito pouco não me isolei completamente.

E sou, de fato, muito grato, pela maneira como fui recebido de volta.

Hoje então, eu prefiro o recuo, o espaço, e tentar prestar mais atenção nos sentidos que as pessoas constroem. Eu que ando com as certezas meio abaladas , me parece mais que apropriado tal movimento... e parar de supor saber tanta coisa...

E agora, mais que nunca, a metáfora da xícara cheia faz sentido...


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